domingo, 8 de abril de 2018

Jamais aprisionarão nossos sonhos


Nós tivemos antena parabólica em 2000 com muito custo. Era difícil depender dos vizinhos para ver os seus programas favoritos e parcelamos uma a perder de vista depois de insistir para meus avós que aquilo era quase necessário. 
Minha avó, quando meu avô faleceu, rodava mercados economizando centavos para dar conta de colocar comida dentro de casa. Sim, nós íamos de mercado em mercado sempre buscando os produtos mais baratos. Minha mãe ajudava ao seu modo. Vi muitas vezes ela tirando casacos que eram pura naftalina do armário e os colocando no sol para depois usá-los para que eu tivesse roupas novas durante o inverno. Aliás, roupas e calçados só em duas épocas, junho e janeiro, apenas. Viajar não era realidade, exceto quando tinha que acompanhar alguém doente para fazer exames em Ilhéus e Itabuna.
Sempre estudei em escola pública e isso me preparou para a vida. A realidade das pessoas que nos rodeia é, por vezes, mais difícil que a nossa e isso me dava resiliência para não reclamar da sorte. Minha mãe em 2006 teve a oportunidade de estudar por um programa de formação de professores na UESC. Dividia apartamento com outras pessoas para que os custos fossem mínimos e pudesse por fim ter um diploma de graduação. Eu passei no vestibular em 2007 e cursei história na mesma universidade que minha mãe. Peguei muita carona, andei muito de ônibus lotado, passei horas na biblioteca, pagava acesso à internet para fazer trabalhos.
Em 2009 minha avó ficou doente e o que sustentou duas pessoas de uma mesma família na faculdade, uma idosa doente e uma criança de seis anos em uma mesma casa foi termos bons empregos na época, fruto do nosso suor. Minha avó deixou-nos de herança a casa, construída com troca de doces por tijolos, numa época ainda mais difícil. E continuamos a lutar muito para termos o que temos hoje.
Pessoas de “berço” não entendem e nem nunca nos entenderão. Pessoas que nunca tiveram que reutilizar roupas e calçados de outras pessoas não sabem o valor que damos por coisas simples. Pessoas que sempre viajaram não sabe a alegria que é tirar férias fora de casa. Pessoas que nunca tiveram que lutar para construir o que tem hoje porque herdaram de alguém, não sabe o valor de cada centavo que se ganha. 
Pessoas simples sempre lutarão e nunca se acovardarão. Pessoas simples jamais deixarão aprisionar os seus sonhos. 


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