sábado, 11 de novembro de 2017

Corra, não olhe pra trás!


Quando você vê o sua rotina transformar em pesadelo é porque chegou o momento de levar os seus sonhos para outros lugares. Aquilo ali ficou pequeno demais e você, dia após dia, sente-se na obrigação de aparar suas asas para não voar dali ou caber na pequena gaiola ofertada. Mas é chegada a hora de bicar as grades e furar a grade, espremer-se por entre as ferragens, ferir-se e sair.
Corra, não olhe pra trás, siga em frente. Sim, você tem um futuro brilhante, você tem um amanhã melhor, não fique com medo de enfrentar a vida agora que não terá facilmente o seu alimento, você nasceu forte o suficiente para correr atrás dele sozinho. Vá, siga o que o sua consciência lhe diz. Corra! Rápido. Coragem!

Re[leve]

Em algum manual perdido escrito a nanquim há a inscrição em letras garrafais que temos que anular, por vezes, nossa liberdade para viver o que outro espera em um relacionamento. Basta o status mudar, (Ok, estamos namorando!) para que paulatinamente apareçam crises, brigas infundadas e imbecis e o que antes era tranquilo quando era tudo despreocupado e divertido se transforma num caos. Não, não nos prepararam para os relacionamentos, e dos mais diversos possíveis. Tudo é levado com um peso enorme. Acaba-se o feeling e tudo precisa ser vivido de maneira cronometrada e piegas.
O que precisamos entender então para melhorar? Nada! Você não precisa melhorar. O que é ser melhor e pra quem se precisa ser melhor? Quem é o juiz que avalia que você é um merda ou um anjo? Estamos falando de relação ou do Juízo Final? É preciso entender que o que os outros qualificam em bom em você é aquilo que elas avaliaram, mas nem sempre é aquilo que tu és. A vida definitivamente não é um comercial de margarina.
Então, não tem essa de anulação, de mudança, precisamos falar de acolhimento. Acolher o outro com respeito, tolerância e paciência. Respeitar sua individualidade e liberdade, sem a chata necessidade de provar diariamente e em doses farmacêuticas você ama. Ama-se pelo estar junto, ama-se quando você não está 100%, ama-se e ponto. Não tem como problematizar isso. Alguém gosta de você e você gosta desse alguém. Fim.
Olha como seria bem melhor: eu te amo, você me ama, nós nos amamos e vamos viver a nossa vida compreendendo que você não precisa todos os dias estar bem, com o melhor de você, porque todas as suas versões são incríveis, pois elas só refletem o quão diversa você é. Eu dou a alguém a leveza de ser quem ela quer ser, sem que a pessoa seja apenas uma projeção dos meus desejos. Eu permito a alguém ser real e não uma fantasia. Relevo e deixo que a coisa se torne leve, jogo o manual no lixo e reescrevo outro, só meu.

Júlia Siqueira

domingo, 17 de setembro de 2017

Mundo real

A mania de idealização é muito humana. Sonhamos com o trabalho que nos fará felizes, com os lugares que queremos conhecer um dia e como será quando chegarmos neles, pensamos no amor ideal e idealizamos a vida perfeita dentro de uma construção que criamos em nossa mente. Mas o mundo imaginado não é nem de perto tão bom quanto o real, porque este nos surpreende e nos faz caminhar pelos terrenos mais improváveis e impossíveis. O mundo real nos tira da zona de conforto e faz com que nos adequemos a situações nunca antes idealizadas. Isso mexe com a gente de um modo inimaginável, porque passamos a ver as coisas sob o signo da realidade.
O trabalho dos sonhos nem sempre será aquele que lhe dará o retorno pessoal que tanto almeja ou o amor de sua vida nem sempre será um príncipe encantado ou uma garota capa de revista. Sonhar não custa nada, já dizia o dito popular, mas viver se surpreendendo com as mágicas da vida real, não tem preço. 

sábado, 16 de setembro de 2017

O dia em que fui mais feliz

O vento soprou o cheiro de morte que a vela emanava em ti. Morte em vida e das piores. Vestirei luto por sua ida, colocarei um véu sob a cabeça por longos dias, levantarei seu caixão com uma força hercúlea da qual não sabia que tinha, chorarei como carpideira paga para o serviço, jogarei o primeiro palmo de terra em sua cova e me despedirei de seu corpo putrefato em jazigo raso.
Depois dessa cena digna do Oscar de melhor atriz, sorrirei a alegria de sua partida, agora livre das amarras que me impunha, entoarei hinos inaudíveis e proferirei palavras chulas apenas pelo prazer de dizê-las, assim, em voz alta. Talvez faça uma festa que deixe Baco envergonhado, talvez conheça o mundo inteiro em suas piores facetas, talvez conheça corpos de todas as cores e sabores e outros olhares desde os mais pudicos aos mais sacanas, talvez... É, estou mais feliz sem você.  


Júlia Siqueira

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Crescer dói

Crescer dói. É uma dor que rasga a alma e nos faz deitar por horas em posição fetal ouvindo qualquer faixa melancólica de Adele em volume máximo. Cadê meus pais para me tirar dessa enrascada? Cadê aqueles que iriam me proteger por toda a vida? Vazio. Olho pro lado e não vejo ninguém, olho-me no espelho e vejo refletido ali a imagem de alguém que não é capaz de resolver seus próprios problemas, mas terá que fazê-lo mesmo assim.
Crescer dói e é uma dor recorrente. Trabalhar para pagar as infinitas contas que se multiplicam no aparador da sala, cozinhar seu próprio alimento ou viver de fast-food por longos dias até se tocar que precisa colocar toda sua força em se levantar para fazer as compras da semana.  É limpar sua casa ou apenas juntar as roupas lavadas em uma cadeira ao lado da cama e olhá-las por horas sem ânimo para organizá-las no guarda-roupa.
Crescer dói e você precisa se curar sozinho, seja quando o seu coração foi partido ou quando as gripes te derrubam tanto que mal consegue levantar da cama para fazer um chá de saquinho. Você precisa ainda curar as mágoas existentes, lembrar que o mundo gira e que as coisas mudam e que você, só você, é responsável agora por sua vida (e isso é de um assombro medonho). Crescer dói, é verdade, mas só com dor que a gente se modifica e aprende a caminhar por essa vida. 

domingo, 30 de julho de 2017

O vazio me incomoda

Nunca fui daqueles que espera que as coisas cheguem até mim, mas de uns tempos pra cá acabei me acomodando com a vida que tenho. Trabalho, família, amigos e relacionamentos, tudo parecia tão bom e tão sólido que me acostumei a olhá-los de um altar diante de minha cama, a poeira, entretanto, parecia acumular com o tempo e a preguiça de mudar as imagens do lugar.
Era preciso mudar, eu sabia, mas quando não se sabe aonde se quer ir, qualquer direção é caminho, não é mesmo?  Não! Olhei ao redor e vi que estava perdendo tempo tendo a mesma postura diante do trabalho, vivendo da desculpa “vamos marcar qualquer dia desses” que sempre damos aos amigos e negligenciando me aventurar por lugares diferentes. Passou a ser comum não me desafiar, ousar o mínimo, preferir o combo cama, TV e celular a sair. Mas esse não sou eu, não faz parte de mim, então decidi corrigir a rota. Se você olha ao seu redor e tudo que vê não lhe apetece mais é o seu clique para chutar o balde, porque a vida é muito mais que horas infinitas no celular e se matar de trabalho pra pagar as contas no fim do mês. A vida não é um ciclo vicioso de planos incontáveis que nunca saem do papel. A vida não é um lixo e eu quero mais. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Qual seria o erro, então?

O amor disse o seu nome e você não escutou. O amor sentou ao lado e você se distraiu. O amor se insistiu e você o ignorou. O amor decorou seu rosto mas você o esqueceu. O amor lhe sussurrou e você nada ouviu. O amor já foi mais simples e você o complicou. O amor que era óbvio, você crê: nunca existiu. A dor disse o seu nome e você de prontidão. A tristeza se sentou e você deu atenção. A saudade se insistiu e você a agarrou. A solidão decorou sua casa e você não reclamou. A vida já foi mais simples e você a complicou. Aquilo que era óbvio você diz que nunca viu.
Qual seria o erro, então?

Guilherme no blog a Ilha de um homem só.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O que agrada a Deus

Jesus, quando veio à Terra, escolheu doze homens sem instrução para serem os seus discípulos. Não eram letrados, nem doutores da lei, eram pescadores simples ou pessoas que exerciam funções comuns na comunidade. Fico me perguntando se hoje, tendo Jesus escolhendo as mesmas pessoas não seria Ele questionado dessa maneira: - Por que mestre escolhes pessoas tão sem cultura e esclarecimento para serem responsáveis por sua Boa Nova? No que Ele responderia de imediato: - Escolho-os pela pureza de seu coração. 
Pessoas sem maldade, despidas de orgulho ou vaidade são as que carregam os fardos mais pesados e têm, no futuro, as alegrias mais doces. Se Maria pensasse no quanto iria sofrer com seu Sim, não aceitaria Jesus em seu ventre. Se Davi se achasse incapaz por sua estatura, nunca teria sido um bom rei. 
Não se ache menor porque alguém lhe diz que você é inferior. Inferior é quem acha defeitos no lugar de qualidades. Quem olha só o lado negativo da vida acaba por perder o lado bom de viver. 

domingo, 4 de junho de 2017

Juízo final

Não, velha amiga, não adiantará sua prece, as novenas que faz para todo o santo do calendário católico e sua falsa beatice, o inferno é seu lugar. Não ache que entoar cânticos que ensurdecem os pobres vizinhos seus e mandar frases reflexivas para todos do trabalho vai te abrir as portas do paraíso, pois o seu coração é putrefato e vil. E olhe, não é julgamento, é constatação. A divindade que você finge servir não se vale de mentiras. Então já sabe, comece a utilizar bastante o forno de seu fogão, a se acostumar com o calor que sai das bocas abertas no fogo alto, torre ao sol, é a forma de ir se habituando ao lugar que passará a eternidade de seus dias.  

Júlia Siqueira

Muitas vidas, um ensinamento

Aquele homem franzino e tristonho sentado naquela mesa de canto no bar mais movimentado da cidade sou eu em uma vida anterior. Era solitário, como a primeira estrela que desponta quando o sol começa a sumir no horizonte nos dizendo que o dia se finda, e possuía qualidades que nem mesmo sabia. Era uma alma jovem, um espírito que precisava se depurar com o tempo, precisava passar por tantas provações para se tornar brilhante e radioso, assim como o ouro necessita ser posto à prova em altas temperaturas para dali sair uma bela joia. Bebericava ali algumas doses de um conhaque ruim e meditava em tudo aquilo que havia visto naquela vida até ali. Morreria de cirrose hepática num leito improvisado no fundo da casa de uma vizinha bondosa.
Na vida seguinte, havia articulado para que tudo fosse diferente e, depois de tantas coisas que vivi em experiências anteriores, acreditava que seria tudo melhor. Mas um véu de esquecimento cobre nossos olhos e as promessas ficam adormecidas esperando uma carga alta de adrenalina para emergir. Não cumpri metade daquilo que quis fazer. Voltei.
Sentei num banco numa praça arborizada e decidi escrever os planos de minha vida seguinte. Depois de muito pensar e ponderar escrevi em letras gigantescas na folha branca a palavra APRENDER. Não queria programar nada, apenas imaginei uma vida de aprendizados, se fossem doloridos, que tivesse força para suportar o fardo, se fossem momentos de deleites que eu soubesse agradecer. E entendi, que ainda que a vida seja pesada, um fardo gigantesco que por vezes queremos abandonar no meio do caminho, ela é no final um grande e eterno aprendizado.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Onde estou?

Não, eu não me importava, poderiam dizer o que bem quisessem eu estava ali, firme, rocha que não se altera por qualquer abalo sísmico. FIM. Perceberam que a palavra IMPORTAVA está no passado? Pois é. Hoje eu me importo. Tenho dado ouvidos a conversas e olhares alheios quando passo na rua. Tenho visto infinitos tutoriais de comportamento, moda, beleza e mais um monte de coisa que sei que não usarei. Sigo dietas, gasto com comidas fit, treinos do momento e aplicativos que insistem em me dizer que preciso apenas deles para ser feliz.
Procuro minha autoestima nos escombros de mim. Cadê aquela pessoa que se importava apenas se as roupas estavam limpas e bem passadas? Cadê aquele ser que comia por felicidade sem se importar com as calorias contidas nos alimentos? Eu que não tomava Ômega 3 e nem poli vitamínicos para as unhas, pois sempre achei-as bonitas para isso, hoje viro o frasco de pílulas coloridas de felicidade goela abaixo. Ouço músicas que pioram meu estado de espírito, de “na bad” pulo para o depressivo-suicida, ainda que não tenha coragem de fazer um mínimo corte em qualquer parte de minha pele, afinal seria um dinheiro mal investido dilacerar minha pele tratada pelos caros cosméticos suíços.
E agora? O que faço? Como volto e reinicio esse jogo que não sei como finalizar? Onde consigo encontrar a minha desimportância das coisas? Qual é o botão de mandar esse mundo à merda e voltar a me enquadrar em minhas próprias regras torpes, malucas e, ainda assim, sensatas? Perguntas... Sem respostas, é claro.

Júlia Siqueira

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Tirania

Vivemos um momento em que as ideias egocêntricas de alguém têm que se constituir como verdades absolutas e incontestáveis e toda e qualquer coisa que destoa disso é considerado porcaria. Ele é tão perspicaz e inteligente que aquilo que pensa começa a ser comungado por tantas pessoas, e defendido por elas, a ponto de se sentir tão forte, ego inflado, capaz e prestes a dominar o mundo (pelo menos é o que se acredita). E hostiliza o diferente, e acha que quem pensa fora da caixa é uma ameaça. E assume uma atitude arrogante diante disso, e autoritária também. E sente uma necessidade masoquista de pisar nas pessoas e maltratá-las se transforma em meu melhor passatempo.
Mas no final das contas quando o jogo acaba, todos são perdedores querendo acertar alguma coisa nessa vida, precisando de algo que valha essa existência, acabando todos, pseudo-sinceros donos de si e proprietários de nada, com terra na cara a sete palmos do chão. E as glórias sonhadas por ideais defendidos viram carne pros vermes, e o esquecimento reina até a subida do próximo tirano. 

sábado, 29 de abril de 2017

Uma família de amor

Uma família não é apenas um grupo de pessoas ligadas por consanguinidade, mas pessoas conectadas por laços de amor. Esse é o mote da história que começarei a contar.
Um pai possuía muitos filhos, e cada um deles, como haveria de ser, tinha uma personalidade diferente. Uns eram amorosos com o olhar, outros intempestivos, uns tantos intransigentes, mas todos eram dotados de um coração enorme. O pai dispensava-lhes um amor incomensurável e era devotado a cada um, procurando entender suas personalidades distintas, e, assim, não julgá-los, em suas diferenças.
Entretanto, os filhos nem sempre entendem aquilo que os pais dizem. Muitos querem seguir suas vidas de maneira libertária e agir conforme sua vontade, colocando uma viseira que os impede de entender o seu redor, apenas visualizando aquilo que está à frente. Com aquela família não seria diferente, cada um queria agir de uma maneira, e suas diferenças, que antes tanto os completava, começaram a ser um problema de convívio. Os amorosos achavam-se penalizados por não ter a mesma atenção do pai tanto quanto os intempestivos tinham, já os intransigentes diziam que o pai reclamava tanto com eles, que parecia que não faziam coisas boas.
As brigas entre eles começaram a ser constantes e o pai teve que intervir. Tirou-lhes aquilo que eles mais gostavam e com dor no coração começou a agir de maneira austera. Não, não era isso que ele queria para os seus filhos, mas o ouro é provado no fogo e o aprendizado por vezes acontece na dor. Com amor, convocou-os e disse: Meus filhos, suas diferenças eram, sobretudo, o que ajudava cada um de vocês a crescer. Lembro-me quando vocês eram pequenos e se ajudavam mutuamente a realizar pequenas coisas. Os mais ágeis ajudavam os mais lentos e estes auxiliavam os mais agitados a terem paciência. Vocês são diferentes e essa é a grande virtude de nossa família. Se fossem iguais seria muito chato ser pai de vocês, mas essa distinção é justamente a mola que me faz ser uma pessoa melhor a cada dia. Meu coração se entristece quando há cisões no relacionamento tão bom que criamos até aqui. Não amo vocês diferente, amo igualmente em cada diferença que vocês possuem. Sejam pessoas melhores uns com os outros para que o mundo que vivem consiga ser um ambiente melhor para repousarem seus problemas.
Silêncio. Os filhos não entendiam o castigo, mas compreendiam amor. O amor é a mola mestra do mundo. O mundo esqueceu o amor, as pessoas esqueceram como amar. O pai era amor, ainda que seus filhos, por vezes, não entendessem isso. Amar não é fazer tudo o que alguém quer ou falar coisas que a pessoa quer ouvir, mas dizer justamente o que ela nunca ousaria desconfiar que saísse de sua boca. Amar alguém não é apenas abnegação e concessões, mas dizer não sempre que necessário.
Só nos importamos com que amamos, pensava o pai silencioso, quem não quer receber amor, de maneira triste, deixamos pra lá. 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Estranho amor

Eu poderia enumerar em uma folha, dessas grandes de papel almaço, frente e verso que te amo porque você consegue realizar todos os meus desejos materiais, além do mais é prestativo, lava a louça quando estou com preguiça e arruma o quarto, por vezes. Ah... além de colocar o café pra mim, trazer água quando peço. Mas isso soa um amor interesseiro e te faz um lacaio europeu que veste seu amo com os maiores cuidados. Não parece a gente.  Então posso afirmar que nenhuma dessas características, que deixariam qualquer pessoa na face deste planeta feliz por tê-lo ao lado, me satisfaz.
Na verdade, o meu amor travestido de maluques é por você não parecer tão inteligente quando discutimos política ou televisão, e assim, mostrar minha sabedoria em assuntos do qual me saio melhor. É ver você irritar com músicas famosamente desconhecidas, pelo menos pra seu gosto musical deveras diferente, ou ainda, ouvir palavras nada católicas em um ambiente religioso (sacrilégio que me faz pagar maravilhosas penitências). 
Sim, eu não sou fã da subserviência ou a caretice do politicamente correto dos casais atuais, presos em modismos ridículos. Gosto quando somos o contrário, mesmo já sendo, e escandalizamos as regras sociais do amor. É aí, nessa bagunça, que você consegue a bruxaria pagã de me fazer te amar ainda mais. 


"Nós somos feito muito pra nós dois"
(Caetano Veloso)

Problematizações dispensáveis

Há um tempo li em algum lugar, talvez nesses livros de autoajuda baratos que vendem nas bancas de jornal e dos quais admito que num passado, não tão distante, fui leitor assíduo, que não se deve exigir de alguém qualidades das quais ainda não possui. Acho essa frase muito pertinente dada à conjuntura (des) humana que vivemos.
 Exigimos do outro tantas coisas das quais nem ele e nem nós nos encaixamos ou ousamos possuir (mas cobramos do mesmo jeito), maximizando isso, por vezes, nas relações de amizade. Constantemente, determinamos a forma com que o outro deve agir conosco, sem ao menos entender se nessa relação agimos do mesmo jeito, e frustramo-nos constantemente por nossos interesses não serem alcançados. Fulano não me trata da mesma forma com que eu o trato, não existe reciprocidade em nossa relação e mais um blábláblá que denota uma carência mal curada infinita.
A coisa seria mais bem aceita e compreendida se nós não esperássemos demais do outro, se a caixinha de surpresa que é o ser humano fosse realmente levada a sério. Explico: não almejando um retorno de nossas ações e entendendo que o outro pode agir de qualquer maneira eu minimizo o meu sofrimento ao achar que tudo pode acontecer (inclusive nada). E vida que segue. A vida é tão simples, preto no branco, mas a gente que acaba inventando e problematizando mais de cinquenta tons cinza entre essas duas cores. 

sábado, 25 de março de 2017

Brilhe

Você tem a mesma luz que o Sol, e, sabe por que ele é tão grandioso e tão importante? Porque ele consegue distribuir sua luz para outros corpos celestes. Sabe quem tem capacidade igual a essa? Você. Sim. Você consegue ser a escada para os outros brilharem, sabe colocá-las pra cima como ninguém e com uma sutileza ímpar. Não acredito que nunca tenha ouvido de alguém o quanto és importante ou ainda se surpreendeu quando alguém disse que gosta muito de ti. Você é luz, enche um ambiente, areja os cantos mofados, aquece os corações gélidos, sua alegria deveria ser patenteada e distribuída em franquias pelo mundo afora. De todas as pessoas que eu conheço no mundo, você é uma daquelas que a gente quer guardar num potinho e ficar por horas olhando.
Sim, eu precisava te contar tudo isso e sair dessa minha condição de terapeuta para uma condição de espectadora. Você precisava ouvir isso para que essa tristeza contornável não tire em nenhum momento o seu sorriso caro, como mesmo diz, da boca. O mundo precisa de seu sorriso, nós precisamos de sua presença. Agora já sabe. Brilhe, você nasceu pra isso. 


"Você tem flores na cabeça e pétalas no coração..." 
(Liniker)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Queria ser você...

Olho gordo, mau olhado... Cruzes. Sete rezas, ramo no corpo. A inveja só é direcionada quando a sua vida é imensamente interessante para o outro, porque o alheio vê em ti qualidades das quais ele quer possuir. Não se inveja o que é ruim ou feio, só se inveja o que parece bom e perfeito, afinal é na comparação que surge essa ideia que a vida do outro é superior a minha e eu preciso olhá-la de um jeito diferente, ganancioso e cruel.
O invejoso não se coloca na sua posição, nem ao menos questiona se realmente sua vida é maravilhosa como aparenta. Há uma história de senso comum que fala que um menino desejou a vida aparentemente maravilhosa de outro, sem antes saber realmente como ela o era, e ao ter seu desejo realizado viu que a forma como aquele garoto vivia se deu conta do quanto sua trajetória era muito mais difícil que a sua.
Acaba que quando eu quero ser alguém que eu não sou ou maldigo outrem por possuir aquilo que eu almejo, alojo em minha alma uma miséria tão grande que me torno tão digno de pena por desejar ser uma cópia e não alguém único e original. 

domingo, 5 de março de 2017

O amor nos muda (e nos emudece)


Num passado não tão distante eu estaria aqui escrevendo que você só ama uma vez e que por mais que se encontre outra pessoa esta não conseguiria suplantar esse amor que já não era mais amor, e sim uma lembrança distante, porém presente. Mas nós crescemos e ainda que sustentemos firmemente que nossas escolhas e opiniões são imutáveis, devagar as coisas que sustentavam nossas teses são derrubadas tão rapidamente que não conseguimos salvar nada em absoluto no meio dos escombros.
Pois bem, hoje me sento diante dessa folha vazia e digo com toda convicção que estava errado. Difícil admitir isso. Existem sim amores, amigos, lugares, pessoas que são imortais, mas elas vivem em um tempo e em um lugar no seu livro da vida. Com algumas vai até o final, já com outras você deixa onde termina o capítulo, no fim da página perto do ponto final. Foi eterno enquanto esteve presente, mas agora é só uma lembrança, um ensinamento.
Complexo é escrever regras sobre o que é amar. O amor se renova, ele é cíclico. O amor pode ter outro nome que você deseja chamar até o final de seus dias. E assim como ele, os amigos recebem outra cara, os lugares assumem outra paisagem. Tudo se modifica, até o pensamento de que só se ama uma vez e que o resto de seus dias é a plena lembrança desse amor que se foi. O amor muda e você muda com ele. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Desejo de aniversário

Ao assoprar minhas velas imaginárias, de quem já se sente velho demais para ter um bolo cheio de confeitos, balões e chapéus, pedirei mais tolerância para nosso mundo, fecharei meus olhos e com toda a força clamarei por dias com mais notícias felizes que tragédias. Exigirei um lugar onde meus filhos possam ir e vir tranquilos, com pessoas alegres que rissem transmitindo amor por onde passam.
Quero mais amor, mais paz em nossas almas, quero a sinceridade no olhar daqueles que nos circunda. Desejo e pronto! É meu anseio, é minha ordem, é minha lei. Almejo poder viver ano após ano em um mundo melhor, ainda que eu saiba lá no fundo que ele está a cada dia mais longe de existir, mas tenho esperança, e quem a tem, tudo consegue, tudo sonha.  

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

A voz das estradas

O menino arruma cuidadosamente sua mochila. Era uma manhã quente de verão e ele tentava acomodar nos espaços já cheios de sua bagagem algumas coisas que achava importante. Aperta daqui e dali, puxa rapidamente o zíper do compartimento maior, e pronto. Olha por um momento, em silêncio, o espaço que outrora estava cheio, agora se esvaziar a seus olhos. Respira, coloca sua mochila nas costas, toma seu casado e sai do ambiente.
Sai em busca do porvir. Mergulha no desconhecido. Senta ao lado de sua mãe entre o cachorro e a marcha velha da caminhonete conduzida por seu pai. Olha pros dois, que o retribuem com um sorriso. Ele entende. O balanço constante do carro tentando desviar dos buracos da rodovia o faz despertar, uma cômoda e tranquila vida, nem sempre é feliz. Transformações são necessárias, ainda que bruscas como essas.
Os buracos da estrada lhe diziam entre um balanço e outro do carro que uma sacudida desperta e todo fim é um recomeço. Mudar, recomeçar e viver são as três leis universais. Era isso que ele queria? Não! Mas era disso que ele precisava. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Sampa

Fotografias têm o poder de nos projetar para lugares e muitas vezes maximizá-los ou minimizá-los. Explico: quando fui ao Rio de Janeiro, esperava encontrar um Cristo Redentor estupendo, que conseguisse tocar os céus de modo a chamar os anjos que ali perto estivesse, mas senti um desapontamento crescer quando percebi que esse “grandalhão” se faz pequeno quando estamos perto dele. Talvez siga a lógica do próprio Jesus, original, de se diminuir para estar em nosso meio, sei lá, mas mesmo tendo recitado internamente essa explicação por dias, confesso que me senti um tanto frustrado. Acredito que essa seja uma frustração parecida quando se encontra pessoalmente alguém desses aplicativos de paquera e se vê que não era nada daquilo que se idealizou. Esse é um problema global entre os seres humanos, o de idealizar e fantasiar uma coisa que talvez não corresponda à realidade.
Em contraposição a isso eu sempre (SEMPRE) tive uma imagem um tanto negativa de São Paulo. Achava suja, desordenada, estranha, avessa. Nunca seria o lugar que eu colocaria para passar as férias, achava pop demais, piegas demais. Todo nordestino nutre um sonho de conhecer São Paulo, falava meu avô. E eu sempre nutri o desejo de nunca ter que pisar os pés naquela loucura em forma de cidade que os jornais me forneciam como sugestão.
Hoje, passados quatro dias de estadia entre a Liberdade e a Vila Madalena, no Ibirapuera e no MASP, tenho que confirmar que Caetano não errou quando cantou que a cidade é como o mundo todo, pois concordo com ele em todos os gêneros e graus possíveis. Vi hippies, punk’s e patricinhas convivendo harmonicamente, gays e lésbicas manifestando publicamente seu amor, senhorinhas simpáticas vendendo flores na rua, senhores conversando calmamente nas lanchonetes, pais carregando seus bebês enquanto observavam mães ávidas por compras. Observei o mundo em apenas uma avenida que não era apenas Paulista, mas acolhia todos os estados brasileiros e abraçava os cinco continentes como uma grande mãe.
Fotografias ainda podem enganar, sim, é verdade, mas poder dizer que se enganou com um pré-julgamento e saber reconhecer isso da maneira mais digna e feliz possível, não tem preço. Eu amo a Bahia, mas meu coração agora pode amar São Paulo também.