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Mostrando postagens de 2020

Ama-se só

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Ama-se a ideia, o lugar, o sabor, o toque, o cheiro. Ama-se a sensação tátil do cobertor abraçando o seu corpo, do travesseiro acariciando sua cabeça num hotel 4 estrelas da última promoção do Booking . A pupila dilata pelo conjunto da obra de Michelangelo, a visão rápida da arquitetura catalã, o azul extasiante das praias tailandesas, o colorido dos pratos mediterrâneos. E tudo isso pode ser feito só. Porque se ama só. Se ama o abstrato, a ideia, o não palpável. Se ama a elucubração, a palavra dita, a expressão de gozo no rosto do outro. Se talvez pudéssemos ver nossa própria face não sendo em um espelho, gostaríamos mais de nós e não ficaríamos mendigando carinhos externos, quando eles são apenas fruto da necessidade fisiológica individual de se agradar. Ama-se a ideia, o lugar, o sabor, o toque, o cheiro, não pessoas.

Doeu

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Doeu como se o meu peito fosse se rasgar, o externo fraturado e as carnes amolecidas jorrando sangue. Doeu como se a existência não fizesse mais sentido, como se os lugares, as músicas e as pessoas ao meu redor insistissem em me lembrar de você. Percebi então que era hora de colocar os ossos no lugar, costurar a própria pele sem anestesia. Doeu. Gritava enquanto gemia de dor, dessas profundas, lancinantes, que não curam com analgésico algum. Até que foi passando, como aquela dorzinha de cabeça que quando esquecemos dela para de incomodar. Passou! – gritei para mim, comemorando. Mas antes só eu sei o quanto doeu.

Acostuma-se

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Acostuma-se ao barulho dos cachorros do vizinho que latem todas as noites para os transeuntes noturnos. Acostuma-se ao mau cheiro do ralo da área de serviço. Acostuma-se com os barulhos dos vizinhos em noites de quarta-feira. Acostuma-se a se sentar às sete para assistir o noticiário local na TV. Acostuma-se com as faxinas nas sextas e o lavar de roupas aos sábados. Acostuma-se com o próprio tempero e com o arroz que vez ou outra se queima.  Acostuma-se tanto com a paz reencontrada. Acostuma-se a viver numa guerra que não se vê o fim. Acostuma-se ao silêncio das manhãs de domingo. Acostuma-se a ser só. Acostuma-se a estar só. Acostuma-se.

Terapia

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Hoje não liguei para a economia dos recursos hídricos do planeta e entrei no chuveiro deixando que a água escorresse demoradamente por cada parte do meu corpo, assim como nos filmes, em que os banhos arrastados geralmente vêm acompanhados de flashs sobre a vida, a razão das coisas ou quais caminhos devem ser tomados pelo protagonista. Mas ali não existia direção de arte e a cena não era conduzida por Almodóvar. Era somente eu com os meus pensamentos deixando que a água fluísse e os pensamentos buscassem suas conexões. A cada jato de força do chuveiro e em cada gota milhões de possibilidades e milhares de subjuntivos. Foi um encontro pessoal comigo, desses encontros que a gente detesta ter porque é a nossa consciência discutindo conosco e não há possibilidade de colocar a culpa em ninguém, como de costume, pois o culpado está ali dentro e não fora, olhando com a cara de espanto para o fluxo maluco das ações e palavras. É quando a gente conversa conosco e entende que as coisas dependem

Teatro

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Durante alguns anos não era eu. Era alguém vestindo a minha pele e atuando em meu lugar. Não era eu, não podia ser eu. Nunca fui dado a ser obediente, sempre amei a rebeldia, mas estava eu ali, no trabalho certinho, na vida quadrada dessas que não causam arrepio na espinha, vivendo os dias um após o outro sem grandes emoções ou algo diferente. Não, não pulei de bungee-jump naquela viagem para a serra, aliás, nem viajei para a serra, pois tinha que economizar para viver aquela vida. Sim, aquela do papel que tinha que representar. E assim economizando dinheiro, acabei me economizando. Viajei de menos, li menos, bebi menos, vivi menos. Foi então que cogitei parar de viver, interromper esse processo doloroso que chamamos de vida. Contudo, alguém tinha um papel perfeito para mim e eu poderia apenas atuar nele, um ator de Hollywood em seu papel mais importante, então aceitei. Mas não era eu. Era alguém vestindo a minha pele e atuando em meu lugar. Não era eu, não podia ser eu.

Esconderijos

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Você me disse que eu estava bem. Talvez esteja. Talvez… essa palavra que a gente usa para momentos tão incertos quanto a previsão do tempo. Mas a verdade é que não estou. Meu coração sangra numa ferida que não coagula, minha alma dói quando escuto a sua voz ou quando lembro de nossas conversas infindas antes de adormecermos. Já chorei abraçado com a foto que tiramos em nossa última viagem, aquela que era para ser nossa lua de mel. Passo horas buscando esconder os meus escombros entre vasos de plantas bonitas e paredes mal pintadas que ouso chamar de modernas. Estou uma caçamba de entulhos atirado em qualquer lugar, um farrapo humano de fazer pena em qualquer transeunte, mesmo assim tento me manter de pé. Você me disse que eu estava bem! Talvez eu esteja… Talvez esteja logrando êxito em esconder o que realmente eu sinto.

Mapas astrais

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Peguei sorrateiramente a sua carteira de identidade enquanto você dormia e anotei em um papel sua data de nascimento. O Sol em Virgem explicava sua forma metódica de ser e talvez o motivo pelo qual disse que meu quarto possuía uma desordem característica. Talvez se deva ao fato do recente retorno de Saturno a meu signo solar ou meu ascendente em Sagitário que tornou essa característica latente em mim. Durante a noite, enquanto velava o seu sono intranquilo fruto de sua energia vital nervosa, fiz nossos mapas astrais, e vi que as conjunções em Vênus fizeram com que nossos destinos se cruzassem recentemente, uma tatuagem celeste em nossas almas. Esse encontro aconteceu quando a Lua ingressou em Gêmeos e nos levou a conversar por horas sobre nós, sobre o mundo, o que queríamos e o que estamos buscamos como caminhantes deste universo. Hoje a gente se uniu como um só, quando o quadrante da casa 10 passava por Câncer e Peixes. Vênus me confessa nessa análise rápida de nosso mapa sobrepos

Maquiagem de dor

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Ah meu querido, eu não consigo fazer com que as coisas doam como você. Perdi a teatralidade, o tato, o jeito de emocionar o outro com feições estranhas e caretas, mas por outro lado aprendi a esconder as coisas com muitas camadas de verniz emocional e de base. Base líquida clara e batom vermelho que, segundo um tutorial na internet, induz segurança de si. E assim sigo. Podre por dentro, mas linda por fora. Vivemos o mundo das aparências, esqueceu darling ? Entre uma foto instagramável, um stories cheio de detalhes e um jazz melódico há muita dor escondida, porém preciso que seja assim, terei que fazer com que aconteça dessa forma, uma dor de manhã de domingo com café forte e não de uma noite de sexta, que impeça o meu sushi com sakê de morango. Um dia, talvez, eu queira (re) aprender a sofrer de forma ostensiva, para que as pessoas sejam benevolentes com o meu padecer. Quando isso acontecer quero as olheiras fundas como dois lagos de águas escuras, a palidez de um moribundo e lágrimas

Estatísticas

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Marina pegou o ônibus com um mau-humor tremendo. Não era sem razão, afinal já haviam passado dois antes deste e nenhum parara. Este, porém, parou, e o motorista até disse entre dentes um bom dia. Ela ia para uma entrevista de emprego e estava confiante de que tinha todos os requisitos necessários para preencher a vaga. Checou as mensagens que recebia no celular e acabou levando o maior susto com o breque repentino da condução. É tiro! – gritavam os passageiros. Marina, infelizmente não conseguiu ouvir a tempo. Suas mensagens ficariam sem responder e o gerente do RH acharia que ela tinha desistido da vaga. Estatística da criminalidade. Pedro saiu da balada e pediu um carro de aplicativo. Estava contente comemorando que sua aprovação no vestibular. Antes de sair sua mãe disse: - Filho, não fica até muito tarde na rua que amanhã eu vou te acompanhar na matrícula. Porém, sua mãe nunca o matriculou. O carro em que Pedro estava se envolveu num acidente. Estatística do trânsito. Joana já ha

Calma, vai passar...

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Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai aguentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. (Fernando Pessoa escreveu, num momento parecido, "hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu") Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa. Que pena. A gente acha que não vai aguentar, mas aguenta: as dores da vida. Pense assim: agora tá insuportável, agora você queria abrir o zíper, sair do corpo, encarnar numa samambaia, virar um paralelepípedo ou qualquer coisa inanimada, anestesiada, silenciosa. Mas agora já passou. Agora já é dez segundos depois da frase passada. Sua dor já é dez segundos menor do que duas linhas atrás. Você acha que não, porque esperar a dor passar é como olhar um transatlântico

Sofre e se alegra

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Todas as quintas-feiras, próximo do meio-dia, eu via da janela do meu escritório uma senhora de idade, já um tanto avançada, caminhando vagarosamente até Igreja Matriz da cidade. Pontualmente, como que por instinto, meus olhos passaram a acompanhar aquela banalidade da vida, até que um dia decidi escapulir do trabalho e ver o que tanto fazia aquela mulher e porque aquilo tanto me intrigava. Ao entrar na Igreja benzi-me, e vi que ela estava ali ajoelhada no quinto banco apertando fervorosamente as contas de um terço que trazia em suas mãos. Caminhei pelo lado oposto e me sentei alguns bancos atrás dela. Ouvia-se apenas o cantar de alguns pássaros que faziam seus ninhos na cúpula acima do altar e o barulho do vento nos galhos das árvores. Baixei os olhos para aproveitar aquele silêncio e involuntariamente chorei. Chorei tanto que não percebi que a senhora saiu de seu lugar e se colocou ao meu lado. O rosto sulcado de tantos anos trazia levemente marcas de choro pelo que pude notar.

Até quando não é amor, é.

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Os primeiros livros que li quando criança foram os contos dos irmãos Grimm. Ali em meio aquelas histórias de amores impossíveis, heróis e bruxas cultivei a minha imaginação. Na maioria delas as pessoas faziam sacrifícios dantescos por amor. Escalavam torres de castelo, enfrentavam bruxas e monstros perversos tudo para defender sua indefesa amada. E assim, como essas histórias que dariam lugar a tantas que assisti ou li durante a vida acabei acreditando que amar é sinal de abnegação e devotamento irrestrito. Que todo amor precisa ter altas doses de sofrimento e renúncia porque senão assim não o é de verdade. Lendo Dom Quixote entendi o contrário. Na obra de Cervantes, o nosso querido e lunático cavaleiro, que briga com moinhos de ventos e exércitos de ovelhas, passa a sua vida amando Dulcineia que sequer existe e lutando por esse amor que exige dele um tanto de sacrifício. Ao final, quando cai em si, pede perdão a todos por sua luta em vão e por não ser ele o herói que imagin

Nada será como antes

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Lembro-me do ano passado. Rápido, porém, intenso. Quantas coisas couberam naqueles três meses. Pude sentir a alegria das férias e o Carnaval. Contato, amor, beijo, festa, sorrisos. Trabalhamos também, eu lembro de pegar meu caderninho, aquele que eu mesmo fiz com folhas usadas amarradas por uma cordinha de sisal, e ali planejei um ano brilhante de trabalho. Estava feliz e planejava conhecer lugares maravilhosos. Tudo estava tão bem que parecia prenunciar os dias cinzas que viriam depois, como quando em meio ao sol de verão arma uma chuva inesperada. Então, o prelúdio do fim. Não poderíamos mais tocar as pessoas que amamos, não deveríamos mais sair de nossas casas, nos tornaríamos obcecados por limpeza e trabalhos remotos. E os planos, todos jogados numa grande fogueira. O máximo que poderemos fazer nestes dias que se acumulam sem a noção exata de um tempo é e nos manter vivos, embora pouca coisa tenha sido explicada a respeito de como viver. Então, gritei da minha sacada: -   Fel

Vai passar

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Já perdi as contas de quantos maços de cigarro fumei. Desde que tudo isso começou, alterno entre o fumo e a bebida, de modo que sequei todas as garrafas disponíveis aqui em casa, uma a uma, dia após dia. E já não sei se devo sair para comprar mais nicotina embalada. Parece que o tempo parou e sigo me arrastando junto com ele, enquanto olho os ponteiros se moverem vagarosamente no relógio da sala. Sinto-me preso a este lugar. Cheguei a calcular quantos metros distam da janela da minha sacada até o chão e quais seriam os efeitos de uma possível queda. Quais ossos quebrariam? Quais traumas? Em quanto tempo a ambulância viria até mim e me levaria para um rolê aleatório em um hospital, com gente indo e vindo escondidas por suas máscaras e seus rostos cheios de pânico e terror? Demovo da ideia rapidamente, tenho ojeriza a hospitais.  Decido desligar a TV, não quero mais más notícias. Tento ler um livro, porém desisto na página 12. Acho que assistirei uma série pelo celular, mas aca

Fala

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Falar, dizer o que sente. Falar, falar sempre. Gritar, se necessário. Mas nunca guardar, esconder, reter. Dizer. Ainda que doa. Ainda que corroa qualquer sentimento bom. Falar, dizer, gritar. Calar? Jamais.

O amor

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Com o tempo a gente descobre que o amor é mais cuidado, companheirismo, torcida mútua do que dizer sempre eu te amo ou demonstrar o que sente através de postagens nas redes sociais. O amor transcende, porque ele não consegue ficar apegado a determinados clichês que só casam bem em comédias românticas hollywoodianas, afinal ele é o caos. O caos de se despir de todas as suas vaidades e ser completamente vulnerável em momentos em que o mundo te pede para ser forte. O sentimento mais puro, que é o amor, supera tantas adversidades e problemas porque entende que só ali ele pode crescer. Na tranquilidade existe muitos sentimentos, mas é na dificuldade que se encontra o amor.

Não vamos para o céu!

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Vai ser difícil chegar ao céu. Sim, porque a gente, inevitavelmente, não é tão bom que não deseja o sumiço, a distância ou a morte de alguém. Às vezes, desejamos que tudo isso nos aconteça, e só aí, contabilizando rapidamente, já cometemos um dos pecados mais abomináveis para a nossa querida sociedade cristã: matar. Mas já nascemos atinados para o crime – confesso-me ao padre cansado de minha paróquia -, pois assassinamos animais inocentes para comermos, entre um hambúrguer e outro o sacrifício de pobres vaquinhas indefesas para alimentar nossa gula, que aliás é um outro pecado, talvez não tão grave quanto esse que vos falo, mas que agora parece piorado. Isso porque não contei os outros pecados cotidianos cometemos, muito menos abri uma planilha e os elenquei por gravidade, pois se assim fizesse a ansiedade já teria me corroído inteira. Não vamos para o céu! - conclui entre o final da confissão e as orações receitadas como penitência pelo velho padre, talvez por pensar tão fora d

Nova volta ao redor do sol

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Em breve acontecerá um alinhamento energético e os planetas estarão na mesma posição em que estavam há trinta anos. E então, em meio ao caos cosmológico, nascerei outra vez, mais atento e mais firme daquilo que quero e daquilo que sou. Todas as inseguranças passadas se transformarão, todas as dores cessarão por alguns segundos e poderei vislumbrar um universo de possibilidades radiantes em minha frente. Dançarei ao lado do sol sem medo algum de queimar a pele, abraçarei as estrelas, tocarei planetas, amarei o porvir. Minha energia transcende e sai de todos os poros de meu corpo e sou retroalimentado pelas vibrações positivas do universo. O mundo se admira com tamanha felicidade irradiada de mim e eu prometo que farei dele um lugar melhor. Assim seja.

É doce morar no mar

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Fito o mar e com o vai e vem das ondas me despeço. Entro na arrebentação e desejo que as águas salinas temperem meu corpo. Fecho os meus olhos, abro os braços, solto minha respiração e levanto uma prece para a Iemanjá. Quero que ela me leve para sua mansão de corais no meio do Oceano. Já não sou mais capaz de morar nesta terra. Seria doce morrer no mar, disse Caymmi certa vez. Não quero morrer, quero morar no mar. Quero a calma e o agito, a bonança e a tempestade. Quero peixinhos a nadar por mim e em mim. Quero o mar. Posso? Adeus.