sexta-feira, 6 de julho de 2018

Buenos Aires


Buenos Aires tem mesmo bons ares. O vento frio vindo não sei de onde, contrasta com o sol que está ali, mas parece que não está disposto a nos aquecer. A cidade respira cultura em seus prédios semelhantes aos vistos na Europa, nos monumentos louvando os heróis de outrora, demonstrando que tem orgulho de seu passado e se preocupa com que o será no futuro. 
Preocupação que se vê na discussão da descriminalização do aborto, na educação e no trabalho. Os argentinos brigam pelo que acreditam, discutem, debatem. E leem. Nunca vi tantas livrarias por metro quadrado e tantas pessoas lendo em praças e parques. Oxalá um dia tivéssemos essa cultura em nosso país, de ler o mundo, de contemplar as coisas e deixar que a vida passe ao modelo portenho, sem pressa alguma. 
Don’t cry for me, Argentina! Voltarei outra vez. 

27/06/2018
Navegando pelo Rio La Plata entre Colónia del Sacramento (Uruguai) e Buenos Aires (Argentina)


domingo, 27 de maio de 2018

O olhar do menino




Ao abrir os olhos para a vida e chorar seu primeiro lamento, agudo e forte, o menino assustou-se. Vultos amontoavam em suas retinas causando-lhe confusão e para ele era mais vantajoso passar os dias de olhos fechados até que conseguisse ter discernimento suficiente para processar tudo aquilo. Dormia por horas, acordava um pouco e voltava ao sono, como se para fugir da nova realidade que o assombrava. Sentia-se protegido e ao mesmo tempo só.
O tempo foi passando, o menino foi crescendo, e as coisas não melhoraram. Solitário num mundo cheio de gente, ele mantinha seu assombro no olhar. A cada novidade vista um novo susto. A vida era um acúmulo infinito de grandes novidades em velhas roupagens, mas ele não perdia a esperança de um dia finalmente se entender com ela. Seus olhos logo precisaram de óculos, condição quase natural de quem nasceu numa era dominada por telas brilhantes e chamativas, mesmo assim as lentes não o ajudaram a entender como eram as dimensões do que ele via e do que sentia, muito mais ainda do que pensava.
Em um dia comum, ele entendeu que a vida era isso. Era não entender, era não questionar, apenas seguir o curso como um patinador do alto de uma descida íngreme, seu objetivo era ir até o fim, mesmo sem saber qual era sua recompensa: glória ou decepção. Então, continuou com seus olhos assustados, olhos graúdos de jabuticaba madura, olhos de assombro de quem vê o mundo pela primeira vez, mesmo com a vista cansada de tanto usá-la. É que ele fita agora cada coisa como no seu início, com um ar eterno de novidade de quem quer tornar as coisas iguais ao começo de tudo.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Mães de todo o mundo, uni-vos!


Mães não precisam viver uma vida inteira devotada a seus filhos para serem reconhecidas como tal. Nem precisam renunciar a sua sexualidade para entrar se enquadrar a um paradigma ultrapassado de revistas femininas de 1910. Muito menos renunciar a si mesma para que seus filhos tenham suas necessidades atendidas ou largar o trabalho para voltar-se para o lar. Mãe é um dos seres mais importantes do mundo, mas não ser mãe não te faz pior que qualquer outra mulher deste planeta.
Coloquem isso na cabeça de vocês. Mães são mulheres e antes do seu sexo as definir como tal, elas são pessoas, seres humanos com vontades, desejos, sonhos, angústias, alegrias e frustrações. Elas precisam sair da sombra de alguém, elas precisam deixar que vocês se virem e esquentem a sua própria comidinha, pois precisa também se arrumar para uma festa com as amigas. Ela vai te ensinar várias coisas para que você consiga se virar sozinho e não seja um imbecil dependente. Chega dessa de mãe é sinônimo de abnegação e submissão à vontade do outro. Mães do século XXI, empoderem-se! Você pode continuar sendo feminina, trabalhar no que quiser, ter uma vida sexual ativa, sair para se divertir e ainda assim amar o seu filho e fazer o que está ao alcance por ele. Antes de tudo você pode ser feliz! Então, SEJA!

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O restaurante lotado e nossas relações vazias


Hoje presenciei uma das cenas mais patéticas desse nosso mundo pós-moderno. Estava almoçando em um restaurante, que por sinal estava bem lotado, quando um rapaz se aproximou da mesa de uma mulher num claro sinal de que iria se sentar ali, pois o lugar estava vago. Iria, do verbo não se sentou, pois, pasmem, a mulher fez uma cara das mais odiosas possíveis e apenas com o olhar conseguiu repelir o moço que ficou novamente sem encontrar lugar. Sim, prato na mão e sofrimento estampado na face, ele buscava um espaço onde pudesse comer em paz.
Quatro mesas depois tinha um casal numa mesa conjugada. Eram duas mesas unidas e quatro cadeiras dispostas. Ao se aproximar o amigo/ marido/ amante/ namorado empurrou a mesa desocupada ao lado deles para que o rapaz a usasse e pudesse ali comer. Obviamente que não com eles, uma vez que se levantaram e trataram de pagar a sua conta, rapidamente. Sim pessoal, hoje vi que temos nojo de gente.
Por que este rapaz não poderia se sentar com um desconhecido para almoçar? Não podemos criar um ambiente tranquilo e conversar com alguém além de nossos laços de amizade? Isso é um crime contra quem?  E essa mesma sociedade reclama que as relações estão frias, que as pessoas não se conhecem mais, que estamos correndo para aplicativos para conhecermos pessoas e nos relacionar com elas, que nos tornamos pessoas frias e não sei mais o que, e na primeira menção a um contato mais próximo, o pânico toma conta de nós a ponto de repelirmos o outro como se tivesse algo contagioso. Onde foi parar a nossa sensibilidade e a nossa empatia? 
Bauman que nos ajude!




P.S: E sobre o rapaz ou qualquer outra pessoa que esteja num restaurante cheio, numa próxima convido ele (s) para sentar (em) à minha mesa, porque hoje ela estava cheia também. 


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Queremos ser eternidade


Quando nascemos inconscientemente já intuíamos: - Um dia a menos. É como se entrássemos em escala decrescente e os anos a mais que tanto comemoramos com alegria, nada mais é que uma contagem regressiva para nos despedirmos desse mundo. Para que nascemos então senão para morrermos a seguir? E de que vale a nossa existência se um dia passaremos a ser apenas uma mera lembrança na vida de alguém que gostava de nós (ou não)?
Não fomos preparados para ser apenas lembrança, um rosto no álbum de fotografias ou um nome numa certidão esquecida. Desde a mais tenra idade fomos projetados para passar as etapas e concluí-las com louvor. A infância e seus joelhos machucados das constantes quedas, a adolescência e sua intensidade, a vida adulta e seus altos e baixos. Era como se a cada passada de fase com sucesso, ganharíamos bônus, moedinhas ou coisas parecidas com qualquer joguinho bobo de celular. E constantemente queremos passar de fase, queremos conquistar os desafios que se impõe e dizer: - Eu venci! 
Aí em um dia inesperado deixamos de ser. O vazio começa a existir e o nada. Para nós, religiosos, nossa alma transcende e somos acolhidos em outro lugar, mas que lugar seria esse? Não sabemos. Então, passamos a não querer conviver com pessoas desconhecidas, não queremos “outra vida”, gostaríamos daquela que construímos com o passar das fases, mas vemos a fase final chegou e fomos derrotados por ela. 
Fim. 
Não estamos preparados para ele. 
Somos instantes, mas queremos ser eternidade.

domingo, 8 de abril de 2018

Jamais aprisionarão nossos sonhos


Nós tivemos antena parabólica em 2000 com muito custo. Era difícil depender dos vizinhos para ver os seus programas favoritos e parcelamos uma a perder de vista depois de insistir para meus avós que aquilo era quase necessário. 
Minha avó, quando meu avô faleceu, rodava mercados economizando centavos para dar conta de colocar comida dentro de casa. Sim, nós íamos de mercado em mercado sempre buscando os produtos mais baratos. Minha mãe ajudava ao seu modo. Vi muitas vezes ela tirando casacos que eram pura naftalina do armário e os colocando no sol para depois usá-los para que eu tivesse roupas novas durante o inverno. Aliás, roupas e calçados só em duas épocas, junho e janeiro, apenas. Viajar não era realidade, exceto quando tinha que acompanhar alguém doente para fazer exames em Ilhéus e Itabuna.
Sempre estudei em escola pública e isso me preparou para a vida. A realidade das pessoas que nos rodeia é, por vezes, mais difícil que a nossa e isso me dava resiliência para não reclamar da sorte. Minha mãe em 2006 teve a oportunidade de estudar por um programa de formação de professores na UESC. Dividia apartamento com outras pessoas para que os custos fossem mínimos e pudesse por fim ter um diploma de graduação. Eu passei no vestibular em 2007 e cursei história na mesma universidade que minha mãe. Peguei muita carona, andei muito de ônibus lotado, passei horas na biblioteca, pagava acesso à internet para fazer trabalhos.
Em 2009 minha avó ficou doente e o que sustentou duas pessoas de uma mesma família na faculdade, uma idosa doente e uma criança de seis anos em uma mesma casa foi termos bons empregos na época, fruto do nosso suor. Minha avó deixou-nos de herança a casa, construída com troca de doces por tijolos, numa época ainda mais difícil. E continuamos a lutar muito para termos o que temos hoje.
Pessoas de “berço” não entendem e nem nunca nos entenderão. Pessoas que nunca tiveram que reutilizar roupas e calçados de outras pessoas não sabem o valor que damos por coisas simples. Pessoas que sempre viajaram não sabe a alegria que é tirar férias fora de casa. Pessoas que nunca tiveram que lutar para construir o que tem hoje porque herdaram de alguém, não sabe o valor de cada centavo que se ganha. 
Pessoas simples sempre lutarão e nunca se acovardarão. Pessoas simples jamais deixarão aprisionar os seus sonhos. 


sexta-feira, 6 de abril de 2018

Humanos? Talvez fomos um dia.


Vivemos um período perigoso em nossa história. Passamos a nutrir um ódio pelo outro simplesmente por ele pensar diferente de nós. Não dialogamos e não damos as mãos para resolvermos juntos situações e problemas. A culpa é do outro e este outro nos culpa de volta.
A empatia ficou no lixo. Sentimentos e sensações despejadas privada adentro. Guerreamos. A dor alheia tem que ser a primeira a ser sentida, o primeiro golpe e a última palavra têm que ser minha. Eu gozo primeiro. Eu sei mais que você. O mundo girando ao meu redor. Eu, eu, eu. Eu venço, mas me perco.
Humanos? Talvez fomos um dia.