sexta-feira, 21 de julho de 2017

Qual seria o erro, então?

O amor disse o seu nome e você não escutou. O amor sentou ao lado e você se distraiu. O amor se insistiu e você o ignorou. O amor decorou seu rosto mas você o esqueceu. O amor lhe sussurrou e você nada ouviu. O amor já foi mais simples e você o complicou. O amor que era óbvio, você crê: nunca existiu. A dor disse o seu nome e você de prontidão. A tristeza se sentou e você deu atenção. A saudade se insistiu e você a agarrou. A solidão decorou sua casa e você não reclamou. A vida já foi mais simples e você a complicou. Aquilo que era óbvio você diz que nunca viu.
Qual seria o erro, então?

Guilherme no blog a Ilha de um homem só.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

O que agrada a Deus

Jesus, quando veio à Terra, escolheu doze homens sem instrução para serem os seus discípulos. Não eram letrados, nem doutores da lei, eram pescadores simples ou pessoas que exerciam funções comuns na comunidade. Fico me perguntando se hoje, tendo Jesus escolhendo as mesmas pessoas não seria Ele questionado dessa maneira: - Por que mestre escolhes pessoas tão sem cultura e esclarecimento para serem responsáveis por sua Boa Nova? No que Ele responderia de imediato: - Escolho-os pela pureza de seu coração. 
Pessoas sem maldade, despidas de orgulho ou vaidade são as que carregam os fardos mais pesados e têm, no futuro, as alegrias mais doces. Se Maria pensasse no quanto iria sofrer com seu Sim, não aceitaria Jesus em seu ventre. Se Davi se achasse incapaz por sua estatura, nunca teria sido um bom rei. 
Não se ache menor porque alguém lhe diz que você é inferior. Inferior é quem acha defeitos no lugar de qualidades. Quem olha só o lado negativo da vida acaba por perder o lado bom de viver. 

domingo, 4 de junho de 2017

Juízo final

Não, velha amiga, não adiantará sua prece, as novenas que faz para todo o santo do calendário católico e sua falsa beatice, o inferno é seu lugar. Não ache que entoar cânticos que ensurdecem os pobres vizinhos seus e mandar frases reflexivas para todos do trabalho vai te abrir as portas do paraíso, pois o seu coração é putrefato e vil. E olhe, não é julgamento, é constatação. A divindade que você finge servir não se vale de mentiras. Então já sabe, comece a utilizar bastante o forno de seu fogão, a se acostumar com o calor que sai das bocas abertas no fogo alto, torre ao sol, é a forma de ir se habituando ao lugar que passará a eternidade de seus dias.  

Júlia Siqueira

Muitas vidas, um ensinamento

Aquele homem franzino e tristonho sentado naquela mesa de canto no bar mais movimentado da cidade sou eu em uma vida anterior. Era solitário, como a primeira estrela que desponta quando o sol começa a sumir no horizonte nos dizendo que o dia se finda, e possuía qualidades que nem mesmo sabia. Era uma alma jovem, um espírito que precisava se depurar com o tempo, precisava passar por tantas provações para se tornar brilhante e radioso, assim como o ouro necessita ser posto à prova em altas temperaturas para dali sair uma bela joia. Bebericava ali algumas doses de um conhaque ruim e meditava em tudo aquilo que havia visto naquela vida até ali. Morreria de cirrose hepática num leito improvisado no fundo da casa de uma vizinha bondosa.
Na vida seguinte, havia articulado para que tudo fosse diferente e, depois de tantas coisas que vivi em experiências anteriores, acreditava que seria tudo melhor. Mas um véu de esquecimento cobre nossos olhos e as promessas ficam adormecidas esperando uma carga alta de adrenalina para emergir. Não cumpri metade daquilo que quis fazer. Voltei.
Sentei num banco numa praça arborizada e decidi escrever os planos de minha vida seguinte. Depois de muito pensar e ponderar escrevi em letras gigantescas na folha branca a palavra APRENDER. Não queria programar nada, apenas imaginei uma vida de aprendizados, se fossem doloridos, que tivesse força para suportar o fardo, se fossem momentos de deleites que eu soubesse agradecer. E entendi, que ainda que a vida seja pesada, um fardo gigantesco que por vezes queremos abandonar no meio do caminho, ela é no final um grande e eterno aprendizado.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Onde estou?

Não, eu não me importava, poderiam dizer o que bem quisessem eu estava ali, firme, rocha que não se altera por qualquer abalo sísmico. FIM. Perceberam que a palavra IMPORTAVA está no passado? Pois é. Hoje eu me importo. Tenho dado ouvidos a conversas e olhares alheios quando passo na rua. Tenho visto infinitos tutoriais de comportamento, moda, beleza e mais um monte de coisa que sei que não usarei. Sigo dietas, gasto com comidas fit, treinos do momento e aplicativos que insistem em me dizer que preciso apenas deles para ser feliz.
Procuro minha autoestima nos escombros de mim. Cadê aquela pessoa que se importava apenas se as roupas estavam limpas e bem passadas? Cadê aquele ser que comia por felicidade sem se importar com as calorias contidas nos alimentos? Eu que não tomava Ômega 3 e nem poli vitamínicos para as unhas, pois sempre achei-as bonitas para isso, hoje viro o frasco de pílulas coloridas de felicidade goela abaixo. Ouço músicas que pioram meu estado de espírito, de “na bad” pulo para o depressivo-suicida, ainda que não tenha coragem de fazer um mínimo corte em qualquer parte de minha pele, afinal seria um dinheiro mal investido dilacerar minha pele tratada pelos caros cosméticos suíços.
E agora? O que faço? Como volto e reinicio esse jogo que não sei como finalizar? Onde consigo encontrar a minha desimportância das coisas? Qual é o botão de mandar esse mundo à merda e voltar a me enquadrar em minhas próprias regras torpes, malucas e, ainda assim, sensatas? Perguntas... Sem respostas, é claro.

Júlia Siqueira

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Tirania

Vivemos um momento em que as ideias egocêntricas de alguém têm que se constituir como verdades absolutas e incontestáveis e toda e qualquer coisa que destoa disso é considerado porcaria. Ele é tão perspicaz e inteligente que aquilo que pensa começa a ser comungado por tantas pessoas, e defendido por elas, a ponto de se sentir tão forte, ego inflado, capaz e prestes a dominar o mundo (pelo menos é o que se acredita). E hostiliza o diferente, e acha que quem pensa fora da caixa é uma ameaça. E assume uma atitude arrogante diante disso, e autoritária também. E sente uma necessidade masoquista de pisar nas pessoas e maltratá-las se transforma em meu melhor passatempo.
Mas no final das contas quando o jogo acaba, todos são perdedores querendo acertar alguma coisa nessa vida, precisando de algo que valha essa existência, acabando todos, pseudo-sinceros donos de si e proprietários de nada, com terra na cara a sete palmos do chão. E as glórias sonhadas por ideais defendidos viram carne pros vermes, e o esquecimento reina até a subida do próximo tirano. 

sábado, 29 de abril de 2017

Uma família de amor

Uma família não é apenas um grupo de pessoas ligadas por consanguinidade, mas pessoas conectadas por laços de amor. Esse é o mote da história que começarei a contar.
Um pai possuía muitos filhos, e cada um deles, como haveria de ser, tinha uma personalidade diferente. Uns eram amorosos com o olhar, outros intempestivos, uns tantos intransigentes, mas todos eram dotados de um coração enorme. O pai dispensava-lhes um amor incomensurável e era devotado a cada um, procurando entender suas personalidades distintas, e, assim, não julgá-los, em suas diferenças.
Entretanto, os filhos nem sempre entendem aquilo que os pais dizem. Muitos querem seguir suas vidas de maneira libertária e agir conforme sua vontade, colocando uma viseira que os impede de entender o seu redor, apenas visualizando aquilo que está à frente. Com aquela família não seria diferente, cada um queria agir de uma maneira, e suas diferenças, que antes tanto os completava, começaram a ser um problema de convívio. Os amorosos achavam-se penalizados por não ter a mesma atenção do pai tanto quanto os intempestivos tinham, já os intransigentes diziam que o pai reclamava tanto com eles, que parecia que não faziam coisas boas.
As brigas entre eles começaram a ser constantes e o pai teve que intervir. Tirou-lhes aquilo que eles mais gostavam e com dor no coração começou a agir de maneira austera. Não, não era isso que ele queria para os seus filhos, mas o ouro é provado no fogo e o aprendizado por vezes acontece na dor. Com amor, convocou-os e disse: Meus filhos, suas diferenças eram, sobretudo, o que ajudava cada um de vocês a crescer. Lembro-me quando vocês eram pequenos e se ajudavam mutuamente a realizar pequenas coisas. Os mais ágeis ajudavam os mais lentos e estes auxiliavam os mais agitados a terem paciência. Vocês são diferentes e essa é a grande virtude de nossa família. Se fossem iguais seria muito chato ser pai de vocês, mas essa distinção é justamente a mola que me faz ser uma pessoa melhor a cada dia. Meu coração se entristece quando há cisões no relacionamento tão bom que criamos até aqui. Não amo vocês diferente, amo igualmente em cada diferença que vocês possuem. Sejam pessoas melhores uns com os outros para que o mundo que vivem consiga ser um ambiente melhor para repousarem seus problemas.
Silêncio. Os filhos não entendiam o castigo, mas compreendiam amor. O amor é a mola mestra do mundo. O mundo esqueceu o amor, as pessoas esqueceram como amar. O pai era amor, ainda que seus filhos, por vezes, não entendessem isso. Amar não é fazer tudo o que alguém quer ou falar coisas que a pessoa quer ouvir, mas dizer justamente o que ela nunca ousaria desconfiar que saísse de sua boca. Amar alguém não é apenas abnegação e concessões, mas dizer não sempre que necessário.
Só nos importamos com que amamos, pensava o pai silencioso, quem não quer receber amor, de maneira triste, deixamos pra lá.