domingo, 28 de janeiro de 2018

Caetano não é pra high-techs

Lembro que as primeiras músicas que ouvi Caetano cantar foram Sozinho e Você é Linda, isso nos idos dos meus dez anos. Na adolescência tive aquela fase rock e depois me entreguei a MPB e seus novos e veteranos cantores. Gostava muito de Chico, Elis, Nara Leão, Bethânia e Caetano. Mas ele não era o meu preferido, até que ouvi Sampa e tudo mudou. Quantas letras lindas essa mente foi capaz de criar. O ouço agora de um jeito diferente, digerindo cada frase, cada letra explícita e implícita, cada acorde. Foi nesse espírito que fui ao meu primeiro show com ele. Um show dele com seus filhos igualmente talentosos. Queria só ouvi-lo, apenas. Ouvir a voz desse ser tão encantador, como diria uma quase-minha-amiga-de-um-só-dia que já se foi.
Tanto era minha loucura calada e contida, minha euforia silenciosa, que coloquei meu celular em modo avião, pois nada deveria atrapalhar aquele momento que beirava o sagrado, pelo menos pra mim. Mas eis que as pessoas ao meu redor profanaram meu momento, não silenciaram, estavam a postos com seus dispositivos brilhantes e aquilo me incomodou, mesmo sendo um usuário mais que frequente de smartphone. Era como se o papa pregasse e os fiéis não estivessem ligando para as suas palavras. Caetano estava ali, um homem dos mais incríveis da música brasileira, e as pessoas não estavam interessadas em ouvi-lo, mas em filmar o seu show nessa loucura esquizofrênica moderna em que não apreciamos o instante tentando colocar ele numa mínima tela e descartar quando a memória estiver cheia. 
Antes de findar o show tiro duas fotos, as únicas, só pra eternizar a mágica de tudo que vi e ouvi. Obrigado Caetano e desculpe pela nossa gente humilde que ainda não sabe apreciar a arte sem um celular apontado pra frente. 

Voltar?

Todos os anos volto à minha cidade natal. Lá revejo amigos, pessoas queridas, familiares. Eles parecem se confundir com os lugares que costumava ir, onde era comum eu passar. Tudo tão igual e ao mesmo tempo tão diferente. Os lugares são os mesmos, as pessoas também, diga-se de passagem, mas então o que mudou? Eu sou o mesmo? - pergunto-me. Não! - responde uma voz dentro de mim. 
As coisas deixadas pra trás ficaram ali no passado distante que revisito todos os anos. Desejo retornar? Não, dificilmente me acostumaria ali de novo. Mas mesmo não desejando isso, sinto um desejo enorme de estar, ficar e voltar. 

Do amor


Amor é calmaria. Amor é profundidade. Paixões são tempestades, raios, trovões e ventos fortes em mar agitado. Amor não. Amor é como um oceano calmo em dia de sol, no qual o jangadeiro navega suavemente. 
Amor é contemplação. É um zelar constante, é sacerdócio, é serviço. 
Amor é foda, sem ser apenas sexo. Amor é alma, carne, transcendência. 
Amor é Vida. 

sábado, 11 de novembro de 2017

Corra, não olhe pra trás!


Quando você vê o sua rotina transformar em pesadelo é porque chegou o momento de levar os seus sonhos para outros lugares. Aquilo ali ficou pequeno demais e você, dia após dia, sente-se na obrigação de aparar suas asas para não voar dali ou caber na pequena gaiola ofertada. Mas é chegada a hora de bicar as grades e furar a grade, espremer-se por entre as ferragens, ferir-se e sair.
Corra, não olhe pra trás, siga em frente. Sim, você tem um futuro brilhante, você tem um amanhã melhor, não fique com medo de enfrentar a vida agora que não terá facilmente o seu alimento, você nasceu forte o suficiente para correr atrás dele sozinho. Vá, siga o que o sua consciência lhe diz. Corra! Rápido. Coragem!

Re[leve]

Em algum manual perdido escrito a nanquim há a inscrição em letras garrafais que temos que anular, por vezes, nossa liberdade para viver o que outro espera em um relacionamento. Basta o status mudar, (Ok, estamos namorando!) para que paulatinamente apareçam crises, brigas infundadas e imbecis e o que antes era tranquilo quando era tudo despreocupado e divertido se transforma num caos. Não, não nos prepararam para os relacionamentos, e dos mais diversos possíveis. Tudo é levado com um peso enorme. Acaba-se o feeling e tudo precisa ser vivido de maneira cronometrada e piegas.
O que precisamos entender então para melhorar? Nada! Você não precisa melhorar. O que é ser melhor e pra quem se precisa ser melhor? Quem é o juiz que avalia que você é um merda ou um anjo? Estamos falando de relação ou do Juízo Final? É preciso entender que o que os outros qualificam em bom em você é aquilo que elas avaliaram, mas nem sempre é aquilo que tu és. A vida definitivamente não é um comercial de margarina.
Então, não tem essa de anulação, de mudança, precisamos falar de acolhimento. Acolher o outro com respeito, tolerância e paciência. Respeitar sua individualidade e liberdade, sem a chata necessidade de provar diariamente e em doses farmacêuticas você ama. Ama-se pelo estar junto, ama-se quando você não está 100%, ama-se e ponto. Não tem como problematizar isso. Alguém gosta de você e você gosta desse alguém. Fim.
Olha como seria bem melhor: eu te amo, você me ama, nós nos amamos e vamos viver a nossa vida compreendendo que você não precisa todos os dias estar bem, com o melhor de você, porque todas as suas versões são incríveis, pois elas só refletem o quão diversa você é. Eu dou a alguém a leveza de ser quem ela quer ser, sem que a pessoa seja apenas uma projeção dos meus desejos. Eu permito a alguém ser real e não uma fantasia. Relevo e deixo que a coisa se torne leve, jogo o manual no lixo e reescrevo outro, só meu.

Júlia Siqueira

domingo, 17 de setembro de 2017

Mundo real

A mania de idealização é muito humana. Sonhamos com o trabalho que nos fará felizes, com os lugares que queremos conhecer um dia e como será quando chegarmos neles, pensamos no amor ideal e idealizamos a vida perfeita dentro de uma construção que criamos em nossa mente. Mas o mundo imaginado não é nem de perto tão bom quanto o real, porque este nos surpreende e nos faz caminhar pelos terrenos mais improváveis e impossíveis. O mundo real nos tira da zona de conforto e faz com que nos adequemos a situações nunca antes idealizadas. Isso mexe com a gente de um modo inimaginável, porque passamos a ver as coisas sob o signo da realidade.
O trabalho dos sonhos nem sempre será aquele que lhe dará o retorno pessoal que tanto almeja ou o amor de sua vida nem sempre será um príncipe encantado ou uma garota capa de revista. Sonhar não custa nada, já dizia o dito popular, mas viver se surpreendendo com as mágicas da vida real, não tem preço. 

sábado, 16 de setembro de 2017

O dia em que fui mais feliz

O vento soprou o cheiro de morte que a vela emanava em ti. Morte em vida e das piores. Vestirei luto por sua ida, colocarei um véu sob a cabeça por longos dias, levantarei seu caixão com uma força hercúlea da qual não sabia que tinha, chorarei como carpideira paga para o serviço, jogarei o primeiro palmo de terra em sua cova e me despedirei de seu corpo putrefato em jazigo raso.
Depois dessa cena digna do Oscar de melhor atriz, sorrirei a alegria de sua partida, agora livre das amarras que me impunha, entoarei hinos inaudíveis e proferirei palavras chulas apenas pelo prazer de dizê-las, assim, em voz alta. Talvez faça uma festa que deixe Baco envergonhado, talvez conheça o mundo inteiro em suas piores facetas, talvez conheça corpos de todas as cores e sabores e outros olhares desde os mais pudicos aos mais sacanas, talvez... É, estou mais feliz sem você.  


Júlia Siqueira